cura dor

É sobre a cicatrização

19:42Ghiovana Christini


Ler ouvindo: Ela - Tim Bernardes



Fiz uma tatuagem, essa semana. Aliás, duas. Uma em cada braço. Coloquei um piercing também, na orelha. Sim, digamos que foi uma semana agitada. Não, eu não me rebelei, nem nada disso. Eu só resolvi tirar da gaveta algumas coisas que sempre planejei fazer e nunca fiz. Tava na hora. Agora tá feito. Acho que ainda não sou nenhuma Rita Lee, nem fiz tudo que eu queria fazer.  Ainda tenho umas três gavetas dessas cheias de outras dessas coisas. Mas, pelo menos, já dá pra riscar duas do checklist e sentir a consciência um pouco menos pesada. Ou não. Ou sim. Enfim. Esse texto não é sobre isso (talvez um próximo).

Fazer as tatuagens foi rápido. Doeu um pouco, sim. Mas, foi rápido. O piercing, mais ainda. Um furo de 3 segundos de duração. Certeiro. Quase não deu tempo de doer na hora. Tipo quando a gente vai pro Beto Carreiro e morre de medo de ir na Big Tower, mas,  quando vai, o trem desce tão rápido que não dá nem tempo de gritar. Eu não gritei. Nem na Big Tower. Nem nas tatuagens. Nem no piercing. Nem em muita coisa nessa vida. Nem chorei. Foi rápido. Nem doeu. A questão é que: A cicatrização é o caramba.

Eu acho que é just like the life is. A gente tá com a cara a tapa pra bater todo dia.  Tem coisa que acontece tão rápido que na hora a gente nem sente. É uma agulhada de 3 segundos. É um soco na boca do estômago que a gente tem que emendar com os próximos quatro compromissos do dia e seguir a vida.

Minha cachorra morreu na semana passada. Depois de treze anos. É a "cachorra feia" daquele texto que eu escrevi em 2014. Ela era importante. Era sim. A notícia pra mim foi uma facada, rápida. Aí hoje eu percebi que naquele dia, depois de ouvir, eu entrei no carro, fui pra faculdade, voltei pra casa, fiz meu TCC, tomei banho, comi qualquer coisa que ficasse pronta em 3 minutos (parabéns, você acertou, foi miojo), e fui dormir pra acordar cedo e ir trabalhar na manhã seguinte. E fiz isso pelos próximos  dias seguidos. Eu nem tirei meu tempo de doer. Eu nem consegui chorar.

Na segunda-feira eu ouvi palavras que me perfuraram mais que a agulha da tatuagem. Tem coisa que marca por dentro. Eu ignorei o nó na garganta e cliquei em todos os botões de "continuar" sem nem ler o que as janelinhas da minha mente diziam. Eu aceito os termos. Whatever. Não dá.

Eu não tenho tempo pra surtar agora. Guardei minha dor no bolso. Cumpri mais ou menos uns sete prazos processuais durante a semana. Trabalhei até mais tarde quase todos os dias. Eu consolei a dor de umas quatro pessoas. Aconselhei umas cinco. Eu quase terminei o artigo que garante que eu finalmente pegue aquele diploma, depois de cinco anos, pra sair correndo viver. Ou pra pendurar na parede e pensar que na verdade eu queria ter feito outra coisa. Quem é que um dia tem certeza?

Hoje já é sexta e eu ainda nem senti. Não me permiti. A gente hoje em dia não tem tempo de sofrer. A gente não tem tempo de ouvir o próprio corpo. A própria mente. A própria alma. A propaganda política tá com o volume mais alto. Os boletos. A crise do Brasil. O novo modelo de celular. A meta do mês. "Será que a gente atinge?", "Será que o Bolsonaro ganha?", "Ele não!", "Ele sim!", "Vocês são uns burros que não sabem pensar porque pensam diferente de mim!". Tem barulho demais. Tá rápido demais. Já é Outubro. Daqui uns dias já é Natal, e até a Rede Globo vai ficar questionando "o que é que a gente fez". Intrometida. Quem ela pensa que é?

A questão é que a gente segue os dias cheios de lesões abertas. De palavras não ditas. De questões não resolvidas. De choros entalados na garganta que a gente clica em "me lembre de novo mais tarde" sempre que aparece notificação pra atualizar.

A cicatrização dói porque machuca. Não dá pra deitar em cima do meu piercing. Dependendo o jeito que eu encosto, dói. Dependendo no que eu encosto, enrosca. Tem que passar álcool e antisséptico todos os dias pra não infeccionar.

A cicatrização dói porque incomoda. Não dá pra coçar minha tatuagem. E coça. Coça pra caramba. Mas não dá. Tá criando casca. Não dá pra tirar. Arde. Não dá pra pegar sol (não que eu pegue muito, como pode-se perceber). Não dá pra ir na piscina. Não dá pra tomar banho com água quente. Tem que passar pomada todo dia. É empenhoso. E eu nem sou lá nada empenhada. Mas tem coisa que exige.

A vida também. Tem coisa que a gente coloca band-aid e continua andando, mas demora pra cicatrizar. Exige cuidado. Exige empenho. Não dá pra ficar coçando. Não dá pra ficar se debruçando em cima. Tem que se readeaquar. Aprender novas posições. Não dá pra ficar tirando casquinha da ferida se não ela não fecha nunca. Foi rápido na hora. Foi um relacionamento que acabou em uma facada só. Mas tem que passar antisséptico na alma. Não dá pra ignorar. Não dá pra deixar o coração infeccionar. Não dá.

Agora é chato e ainda sangra. Agora ainda suga. Mas depois vai ser só uma marca. Depois vai ser só uma coisa pendurada pra enfeitar. Uma palavra escrita pra lembrar. E eu vou me esparramar em cima e nem vai doer. A vida também cicatriza, my friend. Cicatriza, sim.

A semana acabou e é hora de virar de novo a ampulheta. É meu time to breathe, largar o relógio, pegar a caneta. Atualizar minha escrita. Fazer mais um texto com rima no final, só pra no fim, tirar algo da cartola do cotidiano que sirva bem pra alma de alguém. Eu espero que sim.

Eu escrevo com tinta das minhas vísceras, porque na minha dor tem intensidade, mas no meu amor, muito mais coisa tem.

Agora, se me derem licença, vou lá chorar pela minha cachorra.
Sei parecer à prova de balas e ser uma máquina capitalista em horário de expediente.
Mas, no fim do dia e da semana, eu sou gente também.


De quem ainda tem muita coisa pra tirar das gavetas,
Ghiovana Christini.


PS: pra quem quiser, o texto em que eu falo da cachorra feia:
http://www.suacartaviva.com.br/2014/02/sobre-o-cara-que-merece-um-texto-meu.html
(eu sei que vocês são curiosos).



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