#comamorgc cura

É sobre aquele papo de que "vai passar"

18:12Ghiovana Christini



Eu sumi. Por um bom tempo, eu sei. A escrita é onde eu escancaro meu coração pra dar a cara a tapa diante do mundo de quem lê. De quem me lê. Se é que ainda tem quem leia. Tem? Eu nem sei mais. A questão é que, na verdade, a questão já nem é mais essa. Mais do que ser quem escreve pra quem lê, hoje, eu entendo que eu escrevo porque eu não caibo em mim. E é só assim que eu sei transbordar.

Eu me calei porque eu não sei escrever sem entregar o jogo todo do que eu sinto. Se não for pra ser visceral, eu não quero. Se não for pra vir do âmago da última gota do sentimento que tá me corroendo o peito, não me serve. E, nos últimos meses - ou décadas, pelo que parece - eu não andei sentindo coisas tão bonitas assim. E eu poderia tirar milhares de textos do fundo da bagunça que tava por aqui, mas eu não me permiti. Eu precisava me engolir sozinha, até aprender a me digerir direito.

Tem fases que a gente passa que são só nossas, mas, sempre que elas acabam, elas deixam algo bonito pra gente mostrar pro mundo. E eu não sei bem ainda onde eu tô nesse labirinto de tudo que eu vivi no silêncio dos meus dias, mas eu sei que eu já não estou no mesmo lugar. Eu já consigo respirar daqui. Dá pra ouvir os passarinhos cantando de novo. Eu até já consigo fazer umas rimas com os verbos que doeram que eu sei que, talvez, curem alguém hoje.

Ninguém morreu. Nenhuma grande tragédia exterior aconteceu. Quem vê de fora talvez não veja rastro nenhum do furacão que passou aqui dentro. É a beleza do processo. É a beleza do universo que cada um carrega dentro de si. Faz vendaval, tsunami, cai meteoro, e ninguém vê. Mas, a gente sabe. E a gente sempre nasce e renasce de novo quando sobrevive ao que tenta nos consumir silenciosamente.

Das coisas que ficaram aqui, eu vejo a essência. As definições de fábrica que permanecem sempre que a gente precisa fazer um backup do monte de vírus e peso que armazena no peito sem querer. Das coisas novas que chegaram, eu vejo a recompensa de lutar consigo mesmo e vencer. É o cinturão que a gente ergue e as cicatrizes que fazem a gente sorrir, pela ferida que sangrou e sarou sem ninguém ver.

Eu tô escrevendo hoje pra dizer que vai passar. É clichê, banalizado, mas vai. Seja lá qual for a terceira guerra mundial que você tá enfrentando aí dentro. A dor. O medo. Os traumas. A insegurança. A culpa. A tentação de olhar pra trás e achar que é mais perto voltar do que seguir. O ego gritando por precisar parar no meio do caminho, em cima de pontes que balançam, enquanto tudo que a gente queria é mostrar que consegue correr sem pausas e sem olhar pra baixo. A ansiedade e todas as gastrites nervosas que batem na nossa porta quando não é o corpo que tá cansado e só o sono não traz sossego.

Vai passar, acredita. Como já disse Caio Fernando Abreu: "[...] agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás...".  A gente sempre acha que não vai conseguir, mas sempre consegue. No meio do furacão, parece que não vai passar nunca. Mas o furacão, uma hora, acaba. Alguns destroços ficam, é verdade. A gente tem que limpar alguns restos. Mudar algumas coisas de lugar. Eu tive. Mas o vento forte me trouxe algumas cores novas, também. Me fez sorrir mostrando uns dentes que eu nem mostrava. Me fez agradecer por virtudes que eu tinha e nunca nem tinha conseguido ver. Não porque eu sou forte, porque eu não sou. Tem dias que eu ainda acho que tô doendo, mas o Sopro de vida de quem me fez é maior do que o pó com que eu fui feita. Ainda bem. 

Não porque eu me basto, porque eu não basto. Tem dias que eu só preciso de um colo que não faça perguntas. Tem noites que eu deito no peito de Deus sem conseguir dizer nada. Eu sou fraca. Mas, amada. Vulnerável. Mas, cuidada. Corruptível, mas, restaurada. Como você.

Eu aprendi a gargalhar na cara da minha dor, porque eu entendi que ela acaba, mas a Graça não. Eu aprendi na fraqueza a beleza de ser fraco. Eu aprendi no meio do meu abstratismo a beleza de ser moldável. Eu aprendi nas minhas lepras, a beleza de se permitir ser curado, mesmo quando tocar no machucado dói. Ser humano é ter o privilégio de olhar pra si e poder se quebrar inteiro, quando você percebe que construiu por si mesmo coisas além do que devia e podia suportar.

Ninguém morreu. Nenhuma grande tragédia exterior aconteceu. Mas aqui, dentro do meu peito, eu ateei fogo em tudo e pude ver Deus pulando no meio das minhas chamas pra me refazer das cinzas. Os fósforos que eu usei pra me auto-sabotar hoje já não tem mais poder contra mim. O chão que caiu dos meus pés, afinal, foi só pra eu entender que Ele queria que eu reaprendesse a voar.

Algo bonito, enfim, no meio do caos, abriu as primeiras pétalas, que eu esperei pra ver brotar:

Eu escrevo porque eu não caibo em mim. Se você puder, leia e leve um pouco com você. É seu, tem sobrando, tá transbordando... pode ficar.

Welcome back.

Das cinzas do que doeu,  mas já não dói mais,
Ghiovana Christini

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