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Segurar as pontas é algo que se faz a dois

18:09Ghiovana Christini



Essa semana eu fui levar minha vó ao mercado. Ela é do tipo que diz que só vai comprar batata e tomate e sai de lá com um carrinho cheio de um monte de coisas que "acabou lembrando" enquanto passava pelos corredores. Então, não me impressionou nada a demora no caixa, no final da nossa "aventura".

Eu estava exausta. Cansada, e estressada. Tinha acabado de sair do trabalho e só queria ir pra casa logo. A mulher passava cada produto naquele identificador com toda calma do mundo, e eu estava lá, imóvel, ouvindo cada "bip" que lia o código de barras daquelas coisas que não acabavam mais. Foi quando olhei a minha volta e vi algo que imediatamente conseguiu prender a minha atenção, antes, aérea.

Um casal estava saindo do caixa ao lado. Vi que a mulher prontamente tentou pegar a sacola enorme, que continha tudo que haviam comprado. Estava cheia e visivelmente pesada. O homem, que efetuava o pagamento, no momento imediato que a viu, correu ao seu encontro e quis pegar a sacola.

"- Tudo bem amor, eu consigo." - A mulher insistiu.
O homem sorriu, pegou uma das alças da sacola, e disse:
"- Eu seguro uma ponta, e você segura a outra."
Então eu vi aqueles dois saindo do mercado. Não de mãos dadas, mas, lado a lado, carregando juntos uma sacola de compras.

Segurar as pontas é algo que se faz a dois. - pensei.

É que a verdade é que o amor é uma sacola cheia.
A gente tem mania de querer só a sacola e ignorar a existência do peso de tudo que vem dentro. Mas, não dá. É tudo ou nada. É conjunto que não vende separado. Não dá pra abrir a caixa e pegar só uma unidade. É tudo. E carregar tudo pesa demais pra ser algo a se fazer sozinho.

Fiquei olhando aqueles dois caminhando e imaginando se um deles soltasse a alça. A sacola ia cair. Tudo que adquiriram se espalharia pelo chão e, mesmo se o outro tentasse segurar, machucaria o braço.

Segurar as pontas é algo que se faz a dois. - confirmei.

É isso que a gente aprende quando escolhe amar. E é difícil.
É difícil porque quando a gente vai ao mercado sozinho, compra só o que quer e é bem mais fácil de levar. E a gente aprende a carregar apenas o próprio peso a vida toda e se acomoda, mas, de repente, tem mais alguém do seu lado enchendo a sacola. E agora, já não se carrega mais apenas uma forma de pensar, e sim, duas. E agora, a decisão não é mais sua, mas é feita a dois. E agora, o que pesa e machuca o outro, te machuca e pesa em você também. Porque amar é adotar a dor do outro pra si. E o riso. E as conquistas. E sonhos a ainda serem conquistados.  E tudo isso pesa. Mas é aí que se encontra o equilíbrio: O peso aumenta, mas, agora, você não precisa mais carregar sozinho. E ao mesmo tempo que se multiplica, se divide. E no final, o saldo sempre é positivo. E a gente descobre o quão maravilhoso isso é.


O amor é uma soma bonita. Somam-se manias, gírias, conhecimentos, habilidades, receitas de cozinha, e forma-se um belo time de dois. E um troca a lâmpada enquanto o outro segura a escada. E um pendura o quadro e o outro cuida pra não ficar torto. E um sente frio, e o outro aquece. E o que falta em um, o outro repõe. Porque amar também é isso. É colocar o seu próprio dia ruim no bolso pra alegrar o dia ruim de quem está do seu lado. É repor o sorriso que falta no rosto cansado do outro. É repor o polegar acariciando a mão quando o medo vem. E gritar: "você consegue!", quando o outro desanima e não acredita. É ajudar a carregar. Seja lá o que for.

Mas pra funcionar, tem que ser a dois. É via de "mão dupla", aprendi.

Tem muita gente arrastando sacola sozinho. Tem muita sacola abandonada no estacionamento, também, porque ambos desistiram de segurar. O amor é recompensa de quem arregaça as mangas, e está disposto a carregar, em todas as curvas e declives da caminhada.

Eu saí do mercado e fui pra casa com a consciência renovada.

Segurar as pontas é algo que se faz a dois. -  entendi:

Felizes aqueles que seguram a sua ponta com a certeza de que do outro lado, a outra também, está sendo firmemente segurada.

De quem segura as pontas com alguém incrível,
Ghiovana Christini

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