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Sobre o amor e o direito das obrigações

20:59Ghiovana Christini






Iniciei o quarto semestre de direito hoje. Cheguei atrasada, sentei ao fundo da sala - naquele esquema todo de fazer o mínimo de barulho possível pra evitar que a turma toda olhe para trás - e comecei a prestar atenção na aula.

Deparei-me com uma professora que eu gosto muito. Já havia me dado aula em outra matéria e sempre consegue prender a atenção da minha mente de escritora que pensa em mil coisas durante uma aula expositiva (como nesse texto, por exemplo).

O assunto foi "Direito das Obrigações". Essas coisas que a gente tem que fazer nas relações entre credor e devedor, vocês sabem. A gente sempre é credor e devedor de algo, às vezes, simultaneamente. Se eu compro um estojo de alguém, meu dever é pagar e meu crédito é o estojo. Por sua vez, quem vende o estojo é credor do dinheiro e tem o dever de entregá-lo a mim.  A vida tem essas trocas engraçadas, que me fazem pensar, em tudo. Até em Direito Civil.

Ela continuou falando sobre as obrigações, mas, quando chegou em um termo em especial, eu não pude mais adiar o meu instinto literário: Obrigações Propter Rem. "Hein? É de comer?" Minha reação foi a mesma. Mas, assim como ela nos explicou, esforçarei-me em me fazer entender da mesma forma.

O termo "Propter Rem" significa "por causa da coisa", ou seja, obrigações propter rem são as que um comprador, por exemplo, adquire ao comprar uma casa. A casa é dele. Ótimo. Mas o IPTU também vai ser. E o condomínio. E tudo mais.

"Resolveu dar aula de direito agora, Ghiovana?"
 Não, calma aí. Você já vai me entender.

O "x" da questão é que ter uma casa é bom. A casa é linda. Tem uma ótima vista e um quintal enorme. Mas a conta vem, e tem que pagar. A luz vem, e tá no seu nome. A janela quebra e é você que tem que consertar. Ora, vamos, ela é sua, arque! Na hora de adquirir todo mundo é feliz, mas, quando a obrigação vem, nem sempre mantêm-se os sorrisos.

Eu estava em um escritório há alguns dias, e por acaso ouvi dois homens conversando:

"- Minha mulher está com um problema de estômago terrível, tivemos de mudar todo o cardápio lá de casa."


"- Entendo, cara, a minha tem problema de coluna e tivemos que comprar um colchão todo especial pra ela conseguir dormir." 


O fato é que ambos se casaram com mulheres que amavam. Mas, não casa-se apenas com o lado bom. Casa-se com gastrites. Com colunas tortas. Com um dedinho do pé engraçado. Vem no pacote, tem que pagar.

Tem que pagar com amor o defeito chato da pessoa amada que vez ou outra aparece pra encher a paciência. Tem de carregar, como se suas, as dores, manias e formas diferentes de chorar. Tem de se consertar as janelas quebradas e reformar alguns cômodos lá de vez em quando. Pintar as paredes de uma cor mais viva. Comprar um enfeite pra porta. Mas tudo sai do seu bolso. A casa é sua, a conta também. O direito é seu. A obrigação, também. Vem junto, meu caro, não adianta.

A garota que você ama vem com uma voz irritante e um jeito estranho de tomar refrigerante, meu amigo.

Aquele cara que você acha incrível, vem com toalha molhada em cima da cama e futebol toda quarta-feira, minha amiga. E aí, vale a aquisição?

Na vida a gente é sempre credor e devedor, uns dos outros. A gente dá amor e espera reciprocidade. Dá confiança e espera fidelidade. Dá um abraço e espera um beijo. É troca constante, meu caro. Trocam-se telefones. Mensagens. Alianças. Corações. Mas os problemas vem junto. As discussões. O dia ruim. A TPM. A crise existencial. O problema de estômago que exige troca de cardápio. A coluna torta da amada que precisa de um colchão novo. Você gostava tanto do antigo, não é mesmo? Esse é meio alto demais, duro demais. Mas é propter rem. 


Tudo vem com responsabilidade. Tudo vem com prestação pra ser cumprida. No jurídico, a gente paga com patrimônio. Na vida,  com caráter, com amor, e aceitação. 



A você, meu futuro credor, guardo meu coração, e espero o seu em troca, também. Eu espero riso largo. Espero o colo manso de quando a gente encontra o lar em alguém. Espero paixão. Espero olhos que me enxerguem, como nunca antes ninguém.


A gente é sujeito ativo e passivo nesse lance de viver: O amor é civil, meu bem. O amor é essa coisa por causa da coisa. O amor é propter rem.


Com amor,

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2 comentários

  1. Adorei o texto! Nossa você me fez parar pra refletir e realmente, damos um abraço esperando um beijo, e damos amor, esperando recebe-lo de volta. Interessante reflexão sobre isso. Você escreve bem demais <3333
    Beeeijos!
    Livros, Amor e Mais

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  2. Olha essa guria linda escrevendo lindamente. Uma serva de Deus com uma mente iluminada. Parabéns pelos textos Gio, inclusive esse em especial. Estudante de direito tem mania de usar linguagem técnica para associar com as coisas do dia/dia.

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