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Sobre o fim do mundo e amendoins

19:56Ghiovana Christini




"É o fim do mundo todo dia da semana..."

É o que dizia Humbergo Gessinger. E não é que, se parar pra pensar, ele estava certo? O fim do mundo é hoje.

O fim do mundo foi ontem quando eu fui dormir sem dizer o que eu queria e não comprei aqueles amendoinzinhos na cantina da faculdade. Eu devia ter comprado. Era o fim do mundo em algum universo paralelo hipotético. E se tivesse acabado? Eu não ia me perdoar. Meu dia foi horrível. E aqueles amendoins saem rápido de estoque. Sério.

O fim do mundo é amanhã. E eu ainda nem publiquei meu livro. A editora tá me cobrando há uns 3 meses, mas eu não tenho tempo pra terminar o capítulo 4. Vida escassa. Tô fazendo uns trabalhos de pressupostos processuais e algo sobre perempção. Isso. Acho que é assim que escreve. Isso é lá palavra pra existir?

O fim do mundo é amanhã e eu nem fiz uma tatuagem. Deve doer, né? Sou frouxa pra dor física. Por dentro já tenho anestesia. Dá pra tatuar o coração? Dá. O ruim é que tem coisa que depois não sai. A gente tem de ficar tatuando por cima. Eu ando tatuando umas coisas novas. Escrevi felicidade em cima da autocomiseração. Tem funcionado. Mas eu queria escrever aquela frase legal na minha nuca, ia ficar bonito. Ia sim.

O problema é que o fim do mundo é amanhã e eu ainda nem fui pro seminário que eu queria. Eu nem aprendi a tocar violão direito. Eu só sei 5 músicas. O fim do mundo é amanhã e eu nem comecei.

Eu nem fui pra Londres. Paris. Ou África. Não ajudei a construir um orfanato no Haiti. Eu nem conheci o meu vizinho. Eu nem convenci minha avó que cresci. Eu nem recebi aquele maldito diploma que eu queria colocar na estante da sala pra sair correndo viver.

Eu nem queria ser advogada. Nem passar a vida num escritório. Tem vida num escritório? Ainda não tenho certeza. Gastei horas viajando no mundo da lua dentro de uma sala de aula pra tentar ser uma coisa que eu não queria ser.

Eles me disseram que eu era nova, mas, como é que a gente sabe se um dia vai conseguir ser velha? Se o fim do mundo for amanhã, eu vou ter gastado a minha vida sendo nova demais pra fazer o que eu queria fazer.

O fim do mundo é amanhã e eu nem disse o quanto amo minha família. Família - caso o fim do mundo não seja amanhã -: eu amo vocês. Pronto. Tô garantindo a consciência menos pesada. Mas se for amanhã, me perdoem pelos abraços que eu não dei. Sou gringa, grossa.

O fim do mundo é amanhã e eu nem conheci alguém que chama wafer de bolacha pra me sentir menos solitária. Eu nem emagreci os kgs que queria pra partir desse mundo e deixar uma carcaça bonita. Eu nem li os livros da minha lista de espera didática.

Eu ainda não assisti Star Wars com o meu melhor amigo. Eu prometi que assistiria. Aliás, eu nem sei se ele ainda quer ser meu melhor amigo. A gente se estranhou um dia desses. O mundo vai acabar e eu nem disse pra ele o quanto sinto saudade.

O mundo tá acabando e eu não casei.  Eu nem ganhei uma aliança de noivado com o nome do cara que seria "O cara". Eu não pude mostrar que eu seria uma mulher do caramba. Porque eu seria. Eu não vou ter uma lua de mel em Bora Bora e nem ter uma filha chamada Sophia.

O mundo tá acabando e o mundo não me conhece. O mundo tá acabando e eu nem pude ser quem eu sou e me apresentar pra ele. Eu nem pude apertar a mão das pessoas que eu não conheço. Eu nem doei as roupas que eu não usava pra quem realmente precisava. Eu não disse "eu te amo" pra todo mundo que eu queria.

É o fim do mundo todo dia. Todo dia que a gente vai dormir sem fazer o que devia ter feito. É todo dia. Todo dia que a gente não diz o que queria. O fim do mundo foi ontem, quando eu fechei os olhos pra dormir agarrada num travesseiro gigante e não me sentir só. O fim do mundo é hoje, enquanto eu escrevo esse texto durante a explicação do professor e balanço a cabeça fingindo que tô entendendo tudo.

O fim do mundo é quando a gente não deixa os nossos sonhos nascerem na realidade. Porque quando a gente deixa, o mundo pode até acabar, mas a gente teve um universo particular cheio do que a gente queria de fato ser. E fazer.

Provavelmente, amanhã, fora da proposta hipotética, o mundo vai continuar. E o meu desejo é que enquanto houverem amanhãs, a gente não desista de sonhar.  De preferência, agora. Depois é incerto demais. No dia que o mundo acabar, eu quero ter vivido o ontem, como nunca mais.

Que a vida seja à vista. É minha meta pra amanhã também, e depois. Que haja vida pra praticar a teoria. Enquanto isso, dentro do escritório, eu suspiro e guardo os planos na gaveta, junto com o processo número 62.

Peraí, ele tá falando de perempção. Essa palavra existe mesmo?
Acho que vou lá comprar aqueles amendoins.

- Ghiovana?
- "Presente". 


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4 comentários

  1. "O fim do mundo é quando a gente não deixa os nossos sonhos nascerem na realidade. Porque quando a gente deixa, o mundo pode até acabar, mas a gente teve um universo particular cheio do que a gente queria de fato ser. E fazer."

    O fim do mundo é quando deixamos de viver nossas vontades e começamos a viver a vontade do outro, o fim do mundo é se anular um pouco todos os dias, o fim do mundo é deixar pra amanhã o que se pode fazer hoje.
    É negar sentimentos trancada dentro de um quarto enquanto o mundo vive lá fora.

    Lindo texto Ghio!

    Beijo ♥

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  2. Calma aí que eu tô tentando recuperar o fôlego.. MEU DEUS garota, Deus colocou umas células a mais de amor em ti e duplicou as de talento! Ficou incrível, sério. Não sei nem o que falar/digitar, apenas um pedido: jamais pare de escrever! Todo sucesso do mundo pra ti, pois és merecedora ♥

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  3. Muito envolvente e emocionante o seu texto, Ghiovana. Eu pude sentir muito bem a sua angústia, caso o mundo fosse acabar mesmo. Você tem fome de viver e... de escrever. Muito admirável isso!

    Beijos

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  4. "O mundo tá acabando e o mundo não me conhece. O mundo tá acabando e eu nem pude ser quem eu sou e me apresentar pra ele". Gostei muito dessa sua sede de mundo e essa pureza de coração ao demonstrar tudo aquilo que sente. Uma coisa está garantida no coração de todos nós escritores, poetas, apaixonados, cinéfilos e seres humanos: nunca poderemos deixar de sonhar. Belíssimo texto!! Beijos!!

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