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Sobre queimaduras

21:01Ghiovana Christini


Sou desastrada. Já disse isso, né? Pois é. Menos de dois anos de blog e este, já é o segundo texto que escrevo inspirado em acidentes que essa minha peculiaridade me traz. É um defeito. Mas, como eu sou uma pessoa positiva, sempre busco tirar algo bonito de cada coisa ruim que a vida me traz. E  não seria diferente dessa vez.

Eu faço poesia com tudo. Porque poesia é a coisa mais bonita que eu sei fazer. E mesmo diante das tragédias, continua sendo a melhor forma que eu encontro de rir da cara de tudo que acha que consegue tirar a minha paz. Porque não consegue. Nada consegue. E eu escrevo pra mostrar que mesmo diante da dor, eu posso dar o meu melhor. E tirar uma lição bonita. E deixar a vida bonita, com um verso, ou dois. Nem tudo que eu escrevo acontece comigo, mas tudo que acontece comigo, e me toca fundo, eu escrevo.

Queimei minha perna, há alguns dias atrás. O mais engraçado é como eu consegui fazer isso. Miojo. Não ri não. Não foi cozinhando. Foi comendo mesmo. Mas sempre que alguém me pergunta como eu queimei e eu tenho que explicar, as pessoas morrem de rir. "Miojo, Ghiovana?" É. Sou campeã em inovar em formas de se machucar. Obrigada.

Fui comer na sala, no sofá, usando meu colo de mesa. E adivinha? O prato virou. E tinha caldo fervendo. Muito caldo. Muito fervendo. Não ri. Doeu. Queimadura de segundo grau, bolhas e toda aquela coisa que a gente diz "eca" quando vê enquanto franze a testa.

Fiquei com a perna enfaixada por uns 5 dias e manca por uns 10. Às vezes, tinha alguém pra me ajudar a subir as escadas da faculdade. Às vezes, era eu e o corrimão.

Demorou uns dias pra começar a sarar. Fez bolha. Estourou a bolha. Inchou, Desinchou. Ardeu. Latejou. Aliviou. Começou a fazer casca, Começou a coçar. Às vezes, dava vontade de arranhar com toda força pra passar, mas não podia.

Deixei o jeans de lado um tempão. Usei vestido por dias. Refiz o curativo umas 20 vezes.  Fui de moletom de plush pra faculdade e riram de mim, I don't care, baby. A dor é minha. Eu é que sei das noites mal dormidas de um lado só. Eu é que sei do banho frio no inverno. Eu é que sei da fita grudada que dói pra arrancar. Eu é que sei.

Mas sabe o melhor? O aprendizado disso tudo, eu é que sei também. Mas aí, resolvi escrever - como sempre - pra passar em diante.

É que eu pensei que a vida sempre tem dessas coisas, sabe? Eu aprendi que a gente sempre está sujeito a se queimar, todos os dias.  Às vezes, com coisas tão bobas, mas que fazem um estrago danado. É o preço que se paga por viver. É o risco de quem ousa sentir.

Às vezes, é queimadura de primeiro grau, dessas superficiais que a gente esquece com uma semana, ou duas. Às vezes, é segundo. E vai mais fundo. E faz bolha na alma. E estoura. E incha. E desincha. E quando a gente pensa que vai parar de incomodar, começa a coçar.

Faz parte do processo da cura. Coça, mas a gente não pode coçar. Porque a gente tem que deixar a casca nascer. A gente tem que deixar a ferida fechar. A gente não pode ficar cutucando o hematoma se quiser se curar.

Aí passa semanas e ainda tá vermelho e a gente fica com medo de ficar cicatriz pra sempre. Aí a gente tem que cuidar pra não apertar. E a gente precisa se ajustar à dor e deixar algumas coisas que a gente gosta de vestir,  porque machuca. E a gente precisa ver quem não entende rindo porque o que nos queimou parece bobo e não pode doer tanto assim. Mas pode. A dor não depende do meio que a causa, mas de quem a sente. E tem gente que sente tanto.

Ainda existem as piores: As de terceiro grau. Aquela que atinge até os músculos e ossos e necrosa os tecidos. Aquela que deixa marcas que o tempo não leva. A que ultrapassa as camadas superficiais e atinge o nosso âmago. São essas queimaduras mais difíceis que a vida traz de vez em quando. E derruba a gente. E tenta necrosar por dentro. E tenta atingir tudo que encontra pela frente.

Mas eu aprendi que sempre dá pra sarar. E superar a dor. E não ligar pros outros rindo da sua calça de plush. E voltar a usar a calça jeans favorita. E voltar a dormir dos dois lados. E subir as escadas pulando os degraus em dois em dois porque já não dói mais. Mas um dia doeu.

Porque a gente inevitavelmente vai se queimar na vida. E vai doer. E vai coçar. E, algumas vezes, vai demorar pro hematoma desaparecer. Mas ele desaparece. Ele sempre desaparece. Às vezes, fica cicatriz. Mas cicatriz não dói. E ao contrário do corpo, na vida, cicatriz é bonita. Porque mostra que a gente foi mais forte do que tentou nos parar. Do que tentou se alojar. Do que queimou e não quis sair.

Eu passei um óleo com um cheiro horrível porque me disseram que ajudava a cicatrizar. Ardeu pra caramba, me deu ânsia, mas ajudou. Aprendi que, nem sempre, as medidas necessárias para a cura são as que nos agradam.

Aprendi que, por mais segurança que nos traga enfaixar o hematoma, às vezes, é melhor deixar ele aberto. É preciso doer. É preciso sangrar, depois estanca. Depois a bolha estoura. Depois a marca sai.

Aprendi a entender que, por mais que tenha ardido no momento, a dor sempre passa. Com uma pomada, um banho gelado, ou uma dose de esperança.

Aprendi que, por mais importante que a bolha seja pra proteger o machucado, uma hora ela tem que estourar. Porque a gente não pode se isolar pra sempre. E se traumatizar. E se fechar pro mundo. E nunca mais comer miojo porque um dia ele nos queimou. E nunca mais amar alguém porque um dia a gente amou e não deu certo. E nunca mais tentar ser feliz porque a primeira tentativa fracassou.

Eu aprendi que, se você tiver sorte, sempre vai ter alguém pra te ajudar a subir as escadas. Mas, mesmo quando você não tiver, sempre tem o corrimão. E esse, eu gosto de pensar que é Deus, que está sempre ali, ao lado dos degraus, se você precisar se apoiar.

E por último, mas não menos importante:
Aprendi a comer na cozinha.
Agora, pode rir.
 Não é que as mães sempre tem razão?
Maldita intuição feminina. 

Com uma perna em recuperação, um moletom de plush muito bonito
e vários versos pra remediar,


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1 comentários

  1. Mais um texto impecável e cheio de lições! Parabéns Ghio, ficou lindo ♥ E você tem toda razão, por mais que doa as vezes é preciso deixar a ferida aberta, curando-se sozinha e principalmente não ficar cutucando porque senão não vai adiantar nada e ela nunca vai sarar!

    www.palavrasrepetidas.com

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