amor Ghiovana

Sobre o cara que merece um texto meu

19:02Ghiovana Christini


"Você tem os olhos dele." algumas pessoas afirmam. Outras, dizem que o formato da boca é igualzinho. A forma de falar, de rir, de chorar sozinho. A teimosia, tendência a hipocondria, os nervos, a calmaria. Herdei muitas coisas desse cara, mas o mais importante que quase ninguém vê, é o coração.
Ninguém me entende como ele, meu coração puxou ao dele. Esse excesso de amor, de perdão, essa mania de não guardar rancor de ninguém. Essa paciência diante do caos do mundo e de tudo. Esse cara pode não ter uma conta bancária recheada para passar para o meu nome; nem carros importados, casas e barras de ouro, mas ele me presenteou com algo muito mais valioso do que isso, e qualquer materialismo: ele me deu amor. Eu era uma criança chata e teimosa e ele me amou. Hoje, por muitas vezes e dias ruins que nos cruzamos pela cozinha, eu sou uma mulher rude e de respostas curtas, mas ele me ama.
A gente é meio igual. Ele se abanca do sofá e não quer sair de lá. No fim da tarde eu me atiro na minha cama e só apareço no dia seguinte. A gente se comunica por uns berros pra contar que a vizinha perdeu o cachorro enquanto ele assiste um canal chato sobre história que ele ama e eu odeio. E eu leio um livro que ele achou legal o nome. Às vezes a gente se cruza assaltando a geladeira de madrugada, ou na fila do banheiro que é só nosso. Eu xingo ele porque ele molhou a pia toda. Ele me diz que já que eu limpo, alguém precisa sujar. Quando eu tô de bom humor e menos fechada pro mundo eu sento com ele na área lá de casa, ele fala e eu escuto. Eu concordo. Não falo quase nada, porque pra ele eu não preciso usar máscaras, ou tentar parecer interessante. Eu sou um porre, ele sabe. E ele me ama.
A gente tem uma cachorra que une a gente, eu falo o quanto ela é feia e a gente ri porque brinca assim. Eu chego perto dele e ela rosna porque ela brinca assim. E a gente ri, porque na verdade ela nem é feia, mas a gente decidiu que era. Ele é divorciado e ficou comigo na divisão de bens. Coitado. Eu namorei três anos e o cara me achou maluca demais e fugiu. Coitada. Ainda bem que a gente tem a gente. Uma vez, quando meu namoro terminou pela primeira vez e ele recentemente tinha se divorciado, fomos viajar pra nos distrair. A gente saiu comer pizza, pagou um absurdo e mal beliscou. A gente se olhou e pensou que o amor era uma droga. Ou a saudade. Ou qualquer coisa que nos unisse naquela casa, naquela cidade, naquela pizzaria. Como dois iguais.
Esses dias a gente sentou naquela área e falou sobre o amor. Ele nunca esqueceu o dele. Eu nunca esqueci o meu. Mas a vida é arteira, e faz as coisas só pra aplicar lição. Hoje, vendo ele deitado sobre aquela cama de hospital, enquanto o médico me relatava os exames, uma coisa me chamou atenção: Ele tinha sangue demais. Tem algo na enzima que tá alto demais. Ele tem muito de tudo que tem que ser pouco.
Aí eu lembrei de mim. Aí eu lembrei de nós, naquela sala escura, com aquele canal chato, ele me dizendo que nós dois éramos iguais. E somos. Eu tenho muito do que é pouco. E agora, eu uso o meu muito pra dizer: O amor da minha vida é ele.
Olha que coisa mais interessante. A gente não estava sozinho naquela casa, nem na pizzaria, nem em solidão alguma. Ele no sofá dele, eu na minha cama bagunçada. Nós dois. Só precisamos de cômodos de distancia pra caber o amor que existe. Mas dentro do nosso lar, somos uma família. Pai, filha... W a cachorra feia.

Para o cara que merece um texto meu, com amor,
A primogênita bonita.






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